Sobre a Crise...
Na pequena aldeia de Megacnavala, com apenas
algumas dezenas de habitantes, há décadas que o café do Sr. Mora é a principal
referência da economia local. Outrora, ainda taberna, o café do Sr. Mora servia
essencialmente vinho a copo, vindo diretamente das pipas que as
abundantes vinhas de Megacnavala todos os anos enchiam. Agora, os hábitos são
bem diferentes, a cerveja, os refrigerantes e o café tomaram conta das
preferências da clientela, e o vinho a copo é guardado apenas para alguns
anciãos. Mas, não foram apenas as preferências dos clientes que mudaram, a
inóspita taberna fora “promovida” a café há alguns anos quando o Sr. Mora
investira na reformulação da infra estrutura. Mesas, cadeiras e balcão novo,
ecrã LCD de dimensões apreciáveis, ar condicionado para proporcionar um
ambiente mais agradável no verão, já para não falar na esplanada à qual não
faltavam os guarda sois. O investimento ainda foi grande e as poupanças do Sr.
Mora não foram suficientes.....
Felizmente, com a recomendação do Presidente da Junta, algumas famílias
mais abastadas da aldeia financiaram a progressiva remodelação da taberna,
primeiro a família Tostão, depois a família Pessoa, e mais recentemente,
aquando da instalação do ar condicionado e do LCD, o Sr. Franklin,
norte-americano casado com uma jovem da aldeia que emigrara há alguns anos para
os Estados Unidos.
A população acompanhou e apreciou a evolução de taberna a café e como
esperado, as receitas geradas pelo café do Sr. Mora aumentaram. Maiores margens
na cerveja e refrigerantes, do que no vinho, bem como o maior consumo, premeiam
o investimento do Sr. Mora, para orgulho do Presidente da Junta de Megacnavala.
Os “investidores”, das famílias Tostão e Pessoa, ao Sr. Franklin, foram
recebendo sempre os juros acordados com o Sr. Mora atempadamente e de acordo
com o combinado.
Dado o clima de confiança que reinava na aldeia, com o alto patrocínio do
Presidente da Junta, a família Tostão, primeiro “investidor” no café do Sr.
Mora, aceitou há algum tempo renovar a dívida a pedido do Sr. Mora,
acrescentando ainda algum capital adicional a uma taxa de juro mais baixa que a
anterior para financiar a aquisição de um equipamento para tirar bebidas de
pressão e um painel luminoso para o exterior do café. O mesmo se passou com a
Família Pessoa para substituir o ar condicionado que havia recentemente
avariado, e ao Sr. Franklin pediu o Sr. Mora o mesmo, mas para ajudar a pagar a
fornecedores.
Na realidade, a população da aldeia continuava a ser de apenas algumas
dezenas de habitantes, e ainda que o consumo tenha aumentado desde os tempos da
taberna, alguns dos habitués como o Manuel ou o Pedro, há alguns meses que se
tornaram menos assíduos, e os custos de manutenção do café incomparavelmente
superiores aos da taberna. O Presidente da Junta, que em miúdo foi dos poucos
da aldeia que fez a 4º Classe (de antigamente) logo à primeira, facto que o
catapultou para o mais alto cargo político de Megacnavala, dizia ao dono do
café: “Ó Mora, assim não dá pá, então não se está mesmo a ver? Só em eletricidade
deves pagar para cima de uma fortuna, mais a mais aos preços a que ela está. Se
calhar tens que desligar o ar condicionado e o painel luminoso à noite,
senão....”
Como o meio é pequeno e o Presidente da Junta falador, ficaram também os
“investidores” rapidamente a saber que o negócio do Sr. Mora não evoluía tão
bem como todos tinham perspetivado. Logo por azar, tem o Sr. Mora ainda este
ano que pagar tudo o que deve à família Tostão e metade à família Pessoa. Ao
Sr. Franklin, nada este ano, mas tudo no início do próximo.
(continua)Elenco
Estado membro da zona Euro com excesso de dívida, no papel de Sr. Mora
Agência de rating, no papel de Presidente da junta
Investidores nacionais, no papel das Famílias Tostão e Pessoa
Investidor estrangeiro, no papel de Sr. Franklin
Desempregados, no papel de Manuel e Pedro
[In ActivoBank]