quarta-feira, outubro 25, 2006

A luta contra a pobreza e a lição de Muhammad Yunus

Alguém afirmou um dia que um banqueiro é "aquele que nos empresta um guarda-chuva quando está sol e no-lo retira quando começa a chover". Ou seja: que um banco, regra geral, empresta facilmente a quem está bem/tem muito e consequentemente presta boas garantias, todavia penaliza com altas taxas e no limite não empresta mesmo nada a quem tem dificuldades e/ou não apresenta garantias.

Muhammad Yunus é a antítese deste conceito de banqueiro e por isso, enquanto fundador do Grameen Bank, é conhecido como o "banqueiro dos pobres", e o seu trabalho foi agora reconhecido pela Academia Sueca atribuindo-lhe o Prémio Nobel da Paz 2006.

Porquê o prémio Nobel da Paz para este economista?
A Paz, manter a Paz, evitar os conflitos, é o objectivo.
E que meios temos para garantir esse objectivo?
Um desses meios, reconhece agora a Academia, é a luta contra a pobreza e a exclusão, é a luta pelo desenvolvimento social, é a luta pelo desenvolvimento económico sustentável,... é a luta pela redução das desigualdades sociais.
E com que instrumentos?
O instrumento escolhido por M.Yunus foi o microcrédito. Dar crédito a quem é pobre e não tem garantias mas tem capacidade empreendedora. No fundo, seguir aquela máxima: "Ao pobre não dês o peixe, dá antes a cana e ensina a pescar". Milhares de pessoas pobres, sobretudo mulheres no Bangladesh, ultrapassaram a fase da dependência do "peixe" e conquistaram o seu sustento ( e igualmente importante a sua auto-estima), "pescando".
«O maior mérito de Yunus é o de ter persistido na convicção de que os pobres são capazes de empreender para construir um futuro melhor para si e para as suas familias», escreveu Jorge Wemans no Público de 14Out2006, acrescentando que outro grande mérito foi o de «ter formulado uma ideia simples e experimentar em pequena escala, recolher os ensinamentos, adaptar procedimentos, induzir para uma escala maior».

E nós, à nossa escala (regional/municipal), o que fazemos por esse objectivo? Que meios temos? Que instrumentos podemos utilizar?

«2015: Sem Desculpas! O mundo Deve Ser Melhor» é , como lembrou muito bem o Dr José Paulo Farinha no preâmbulo do Diagnóstico Social da Sertã, o lema da campanha promovida pela Cidades e Governos Locais Unidos e pelo Comité dos Municípios e Regiões da Europa. A nossa acção deve ser norteada por esse lema. Mas, para agir, com segurança, temos de fazer o prévio diagnóstico. Porque "não há nada mais inútil do que executar, com eficiência, aquilo que nunca deveria ser executado"(Peter Drucker).

Este Diagnóstico Social e a Agenda 21 Local do Município da Sertã, já concluidos, bem como o Estudo Demográfico a realizar, são peças que faltavam, e que constituem a base séria de trabalho para a partir da mesma, esperamos todos, se passar à acção. Se a aprendermos a "lição" de Yunus, encontraremos os meios e os instrumentos necessários.

Jorge Rodrigues Farinha
(Vereador da Câmara Municipal da Sertã)

1 comentário:

natércia disse...

Do autor do texto - Jorge R. Farinha - não poderia esperar-se outro tema que não este (de notar que esta curta constatação não se baseia na última acusação que lhe fiz de ser friamente pragmático e tecnocrata).

Todavia, salvaguardando todos os méritos que o "nobelizado" tenha e todos os factores que altera, nomeadamente a independência de quem com esta medida cresce, é minha opinião que não deveria ser na categoria de PAZ que este feito deveria ser incluído. Mas já se sabe, raramente estamos de acordo, somos ambos destros, mas as nossas esquerdas e, consequentemente, as nossas visões da realidade, são estranhamente diferentes.